Distopias midiáticas ficcionais e não-ficcionais
Não somente as previsões futurísticas a respeito da comunicação, mas também as tentativas de sua representação no presente, tanto ficcionais quanto não-ficcionais, tendem a ser pessimistas no que diz respeito ao controle social para o qual a mídia pode contribuir. Aponta-se uma grande probabilidade do “fim do social” e, com isso, o surgimento de uma massa ignorante e indiferente ao que acontece à sua volta. Na obra 1984, escrita em 1948, George Orwell indica o surgimento da imprensa, principalmente a televisiva, como um dos principais meios de imposição e controle das idéias e do comportamento da população. Orwell aponta o surgimento da imprensa como um dos grandes colaboradores para esse “fim do social“:
A invenção da imprensa, contudo, tornou mais fácil manipular a opinião pública (…). Com o desenvolvimento da televisão e o progresso técnico que tornou possível receber e transmitir simultaneamente pelo mesmo instrumento, a vida particular acabou. Cada cidadão (…) passou a poder ser mantido vinte e quatro horas por dia sob os olhos da polícia e ao alcance da propaganda oficial, fechados todos os outros canais de comunicação. Existia pela primeira vez a possibilidade de fazer impor não apenas completa obediência à vontade do Estado como também completa uniformidade de opinião em todos os súditos. (ORWELL,1948, p. 192-193)
O filósofo Jean Baudrillard afirma que a divulgação de informações por parte da imprensa não tem outros objetivos além de massificar idéias, mantendo a população sob controle de pensamento e de ação, o que remete a essa “uniformidade de opinião” a que Orwell se refere. Baudrillard afirma também que, se existe uma “comunicação racional”, que pretenda realmente informar, esta não atinge seu objetivo, pelo fato de uma massa acostumada e interessada no espetáculo, quase completamente desinteressada em assuntos que lhe dizem respeito diretamente, ser predominante como público das notícias. A respeito disso, Baudrillard afirma que
Seja qual for seu conteúdo (da informação), político, pedagógico, cultural, seu propósito sempre é filtrar um sentido, manter as massas sob o sentido. Imperativo de produção de sentido que se traduz pelo imperativo incessantemente renovado de moralização da informação: melhor informar, melhor socializar, elevar o nível cultural das massas, etc. Bobagens: as massas resistem escandalosamente a esse imperativo da comunicação racional. O que lhes dá é sentido e elas querem espetáculo. (BAUDRILLARD, 1985, pg. 14)
A apatia da massa por assuntos de grande relevância e impacto na sociedade e sua preferência pelos espetáculos pode ser representada por um exemplo dado por Baudrillard. Enquanto poucos importam-se em vigiar acontecimentos importantes, a maioria preocupa-se em divertir-se. Baudrillard dá um exemplo disso ao citar um fato ocorrido na França:
Vejamos um exemplo entre mil desse menosprezo pelo sentido, folclore das passividades silenciosas. Na noite da extradição de Klaus Croissant, a televisão transmitia um jogo de futebol em que a França disputava sua classificação para a Copa do Mundo. Algumas centenas de pessoas se manifestavam diante da Santé, alguns advogados correm na noite, vinte milhões de pessoas passam sua noite diante da televisão. BAUDRILLARD, 1985, pg. 16)
Algumas teorias do jornalismo creditam esse modo de selecionar o que é ou não importante para a sociedade aos meios de comunicação. A teoria da Agenda Setting, por exemplo, destaca o poder da imprensa de estabelecer o que será considerado importante pelo público, o que deve ou não estar presente nas discussões públicas. No caso citado acima, exemplo dado por Baudrillard, a televisão transmitiu o que daria mais audiência – o futebol – enquanto o advogado Klaus Croissant, acusado de participar de um grupo terrorista da Alemanha, era extraditado. Baudrillard questiona: porque “se encontram (…) mil pessoas para se mobilizar e vinte milhões para ficar ‘passivas’? – e não somente passivas, mas por preferirem (…) um jogo de futebol a um drama político e humano?
Jorge Pedro Sousa faz, no livro Teorias da Notícia e do Jornalismo , amarras entre diversas teorias que discutem a participação da mídia na vida quotidiana e sua função de mediar a comunicação entre quem manda e quem recebe as ordens. Sousa afirma que “os meios jornalísticos são o principal veículo de comunicação pública através dos quais a estrutura de poder se comunica com a sociedade”, portanto são os meios mais propícios para, muito além de simplesmente transmitir informação ao publico, “formá-lo”, moldá-lo a um pensamento coletivo, massificado. Formar opinião e uniformizar pensamentos de acordo com o interesse público, transformando-o em interesse do público. Segundo Sousa,
(…) podemos intuir que a comunicação jornalística é um elemento importante na organização da vida quotidiana. De alguma forma, as notícias, entre múltiplas outras funções, participam na definição de uma noção partilhada do que é atual e importante e do que não o é, proporcionam pontos de vista sobre a realidade, possibilitam gratificações pelo pelo seu consumo, podem gerar conhecimento e também sugerir, direta ou indiretamente, respostas para os problemas que quotidianamente os cidadãos enfrentam. As notícias, ao surgirem no tecido social por ação dos meios jornalísticos, participam na realidade social existente, configuram referentes coletivos e geram determinados processos modificadores dessa mesma realidade. ( SOUSA, 2002, pg. 119)
Outro dos aspectos abordados por Orwell em 1984, diz respeito a manipulação da verdade como forma de enganar o público. A forma como as “verdades” são aceitas como incontestáveis quando divulgadas pela imprensa e a forma com que estas mesmas verdades incontestáveis podem ser mutáveis, em defesa de interesses próprios dos veículos de comunicação ou de um governo totalitarista, como acontece no livro. Uma “verdade” substitiu a outra, com pouca contetação de quem as recebe como tais. No caso de 1984, um ministério especializado - Ministério da Verdade – é responsável por produzir, reproduzir e mudar, conforme necessário, as informações contidas em textos de jornais, revistas, filmes, pronunciamentos de Tv, etc. para que o público acredite que o que é publicado e divulgado pelos meios de comunicação é, e sempre foi, a verdade.
(…) A sociedade oceânica repousa na crença de que o Grande Irmão é onipotente e o Partido infalível. (…) A alteração do passado é necessária (…) para (…) salvaguardar a infalibilidade do Partido. Não significa apenas que se modifiquem discursos, estatísticas e registros de todo gênero para demonstrar que as predições do Partido são sempre certas. É que não se pode admitir, jamais, nenhuma modificação de doutrina ou de agrupamento político. Mudar de idéia, ou de política, é confessar fraqueza. (…). E se os fatos dizem coisas diferentes, então é preciso alterá-los. (…) O passado é o que dizem os registros e as memórias. E como o Partido tem pleno controle de todos os registros, e igualmente do cérebro dos seus membros, segue-se que o passado é o que o Partido deseja que seja. Segue-se também que embora o passado seja alterável, jamais foi alterado num caso específico. Pois quando é reescrito na forma conveniente, a nova versão passa a ser o passado, e nada diferente pode ter existido.(…). Todas as vezes o Partido é detentor da verdade absoluta, e claramente o absoluto não pode nunca ser diferente do que é agora. (…) E se for necessário rearranjar as lembranças de cada um, ou alterar os registros escritos, então é necessário esquecer que assim se procedeu. Esse é um truque que pode ser aprendido como se aprende qualquer outra técnica mental. É aprendido pela maioria dos membros do Partido e certamente por todos que são tão inteligentes quanto ortodoxos. (..)Chama-se, com toda a franqueza, “controle da realidade.”